diário do sítio

Um setembro de chuva, calor e frio

Acordei às 4h40 com o barulho da chuva no telhado. Quem vive da terra aprende a ler esse som: há a chuva mansa, que a gente agradece, e há a chuva pesada, que tira a gente da cama antes da hora. A de hoje era da segunda espécie. Calcei as botas e fui ver os canteiros antes mesmo de o café ficar pronto.

O pluviômetro do sítio marcou 38 mm só nesta madrugada. Somados aos dias anteriores, são 92 mm nos dez primeiros dias de setembro, quase o que costuma chover aqui no mês inteiro. E setembro, em Petrópolis, sempre foi mês de trégua: o fim da seca, a terra firme, as folhas no seu melhor momento. Este ano está diferente. Na terça-feira, o termômetro da estufa amanheceu em 9 °C; na quarta à tarde, bateu 31 °C. Vinte e dois graus de diferença em pouco mais de um dia. A planta sente isso como a gente sente: fica sem saber em que estação está.

Os meteorologistas têm nome para o que está acontecendo. O El Niño segue ganhando força e já influencia o clima de setembro em todo o Brasil. Os órgãos oficiais falam em 90% de chance de um El Niño muito forte entre setembro e novembro, e há análises indicando que ele pode se tornar o mais intenso desde 1950. Para o Sudeste, a previsão do mês era justamente esta: chuva onde normalmente há estiagem e uma gangorra de temperaturas. Eu leio os boletins todos, mas confesso que o meu boletim mais confiável continua sendo o canteiro de alface.

E o canteiro anda dizendo muita coisa. A alface é a mais sincera das plantas: não esconde nada. Com calor, ela pendoa, isto é, espicha, amarga e passa do ponto antes da hora. Com chuva demais, a água se acumula no miolo, as folhas de baixo apodrecem e o fungo aparece. Nesta semana, de cada dez pés de alface-crespa do canteiro de cima, três não chegaram ao padrão que eu aceito colocar numa cesta. A rúcula, o espinafre e o coentro sofreram de modo parecido. Já a couve, a cenoura, a beterraba e o aipim, de raiz funda e folha grossa, seguem firmes, com cara de quem já viu coisa pior.

É nessas horas que o orgânico cobra o seu preço. Não tenho na prateleira um veneno que resolva o problema em uma tarde, e não quero ter. O trabalho é outro, mais lento e mais braçal: abrir sulcos para a água escoar, levantar os canteiros, cobrir o solo com palha para a chuva não lavar os nutrientes, aumentar o espaço entre as mudas para o ar circular, aplicar a calda bordalesa e o biofertilizante na hora certa. Nesta semana, esticamos 120 metros de túnel baixo sobre as folhas mais delicadas. Passamos também a plantar alface toda semana, e não mais a cada quinze dias, em lotes menores, para que uma chuva ruim nunca leve uma safra inteira. E trocamos parte das variedades por outras que aguentam melhor o calor.

Conto tudo isso porque acredito que quem recebe a nossa cesta merece saber de onde ela vem, inclusive nos dias difíceis. Se nas próximas semanas a alface chegar um pouco menor, ou se no lugar dela vier uma chicória ou uma couve mais viçosa, saiba que foi escolha minha: prefiro mandar uma couve linda a uma alface cansada. Comer orgânico de verdade é comer no ritmo da terra, e a terra, este ano, está pedindo paciência.

Aos nossos assinantes, o meu muito obrigada. Pequeno produtor não tem seguro contra céu fechado; o que nos dá coragem de plantar de novo na segunda-feira é saber que, toda semana, há famílias esperando pelo que sai daqui. Essa confiança é o nosso chão. Em troca, deixo um compromisso: estou focada, de corpo inteiro, em levar até vocês o melhor que este sítio pode dar, faça o tempo que fizer.

No fim da tarde, o sol abriu por uns quarenta minutos. Foi o bastante para as folhas brilharem e para os canteiros novos, plantados na segunda, mostrarem as primeiras pontinhas verdes. A terra é teimosa. Nós também.

Com carinho,
Fátima